COMISSÃO TÉCNICA DE
Fruticultura

TECNOLOGIA

Pomar tem regras para exportar

Plantações de maçã, no Sul, e de manga e uva, no Nordeste, começam a seguir as normas da produção integrada, exigidas pelos importadores europeus

Texto Odilon Guimarães

Os consumidores dos países desenvolvidos, principalmente os europeus, estão cada vez mais exigentes em relação aos alimentos que compram. Querem saber de onde vieram e como foram produzidos. Preocupam-se em garantir que eles não contêm resíduos químicos ou outros contaminantes. Esse comportamento dos compradores repercute agora nas lavouras e na criação. Um exemplo é a identificação do rebanho bovino, que começa a ser aplicada nas fazendas brasileiras para atender às normas de rotulagem da carne da Europa (leia matéria principal da seção Giro desta edição). E as mudanças também estão chegando aos pomares do país, ao mesmo tempo no Sul e no Nordeste.

No próximo ano, a maior parte dos países da Europa vai começar a exigir das frutas que importam certificação de qualidade, comprovando que foram cultivadas em pomares que seguem as normas da produção integrada. Esse sistema, inicialmente utilizado por fruticultores europeus na década de 70, tem como base o manejo integrado de pragas e doenças. Conhecido como MIP e aplicado por muitos agricultores no Brasil, esse conjunto de práticas procura controlar a sanidade das lavouras com uso moderado de agroquímicos. Mas o sistema, também batizado com uma sigla, PIF, vai além do MIP, definindo regras para todas as fases da produção, sempre com o objetivo de reduzir o impacto ambiental. Além disso, impõe um rigoroso acompanhamento do processo até o tratamento pós-colheita.

As frutas de clima temperado terão que cumprir a exigência européia já em 2003, e os produtores de maçã dos estados do Sul foram os primeiros a iniciar o trabalho para implantar o sistema integrado no país. Para as frutas tropicais, a data inicial da cobrança do selo é 2005, mas os trabalhos para a adequação dos pomares de manga e uva de mesa do pólo irrigado de Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, no Vale do São Francisco, também estão em andamento. Nas duas regiões, pesquisadores da Embrapa e outras entidades trabalham em conjunto com os fruticultores para a definição das normas a serem seguidas.

O bom relacionamento entre os pesquisadores da área de manejo de pragas da Embrapa Uva e Vinho, localizada em Bento Gonçalves, RS, e os produtores gaúchos e catarinenses de maçã tornou possível a decolagem em 1997 do projeto pioneiro da produção integrada no país. Com apoio das empresas, foram implantadas cinco áreas experimentais nas principais regiões produtoras: duas em Vacaria, RS; duas em Fraiburgo e uma em São Joaquim, cidades catarinenses. Em cada uma delas, há dois pomares — um da variedade gala e outro da fuji — conduzidos no sistema convencional e dois outros seguindo as normas da produção integrada, para efeito da comparação. Mas o trabalho não ficou restrito às áreas experimentais. Assim que as normas do novo sistema foram definidas, muitos produtores passaram a aplicá-las em seus pomares, com acompanhamento de técnicos das associações que os representam e dos pesquisadores da Embrapa.

COM PRESSA No Nordeste, o trabalho começou mais tarde, em 1999, porém de forma acelerada. As grandes produtoras e exportadoras de uva e manga da área irrigada do São Francisco sentiram a necessidade de se preparar para atender às exigências dos compradores europeus. "Devido à pressa dos produtores, as normas foram definidas com a compilação das técnicas mais adequadas para as várias fases do cultivo, determinando o sistema a ser seguido nos pomares da região", afirma Paulo Roberto Coelho Lopes, chefe-geral da Embrapa Semi-Árido, de Petrolina. Ao mesmo tempo, pesquisadores de outro centro da Embrapa prepararam um diagnóstico do impacto ambiental da produção irrigada.

As Exigências do Sistema

 

Produção convencional

Produção integrada

Práticas de manejo

Sem restrições

Práticas referidas nas normas técnicas da produção integrada

Treinamento e atualização técnica

Opcionais

Obrigatórios

Opção pelo sistema

Sem necessidade de definição

Opção por adesão em documento assinado com a certificadora

Material para o plantio

Cultivares com adaptação variável e plantas disponíveis

Cultivares adaptados à região e preferência a plantas livres de vírus

Aplicação de fertilizantes

A critério do produtor

Respeito a limitações definidas

Proteção das plantas

De acordo com treinamento da empresa e seus técnicos

Uso obrigatório de monitoramento e apoio das estações de aviso

Pesticidas usados

Os registrados para o uso na cultura

Restrições a produtos com impacto ambiental indesejável e potencial de eliminação de organismos benéficos

Aplicação de herbicidas

Uso dos registrados para a cultura

Uso limitado

Tratamentos químicos pós-colheita

Uso dos produtos registrados para a cultura

Uso restrito

Controle da cultura

Controle oficial dos resíduos de pesticidas nos produtos levados à venda

Fiscais das certificadoras verificam atividades duas a três vezes por ano

O apoio dos empresários deu-se através da Valexport — Associação dos Produtores e Exportadores de Hortigranjeiros do Vale do São Francisco e, como no caso da maçã, rapidamente vários agricultores passaram a aplicar as normas da PIF em seus pomares. Hoje, entre grandes empresas e produtores instalados em lotes familiares dos projetos de irrigação, 19 propriedades, totalizando 2.500 hectares, já adotam as regras no cultivo da manga. Na produção da uva, são 18 propriedades e 1.055 hectares monitorados.

Assim como acontece na produção orgânica, no sistema integrado o cumprimento das normas será fiscalizado por certificadoras, encarregadas de emitir os selos que passarão a ser o passaporte para a entrada nos mercados europeus. Mas não só os produtores que exportam mostram interesse em adotar o sistema integrado. "Nas grandes redes do varejo nacional já se nota uma tendência de dar preferência a produtos com alguma forma de comprovação de qualidade, e os fruticultores querem estar preparados para isso", afirma Luiz Borges Júnior, presidente da ABPM — Associação Brasileira dos Produtores de Maçã. É mais um motivo a explicar a boa acolhida ao sistema integrado. As normas da PIF já são aplicadas em uma extensão de 8 mil hectares de pomares de maçã nos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, enquanto a área total ocupada pela fruta na região, segundo Borges, é de 32 mil hectares.

Com vigilância, menos remédio

Monitoramento de pragas reduz aplicações de agrotóxicos e risco de contaminação

A atitude mais comum dos agricultores quando acreditam que uma praga está atacando as plantas é partir para a aplicação de agrotóxicos antes mesmo de comprovar a real necessidade da ação. Na produção integrada, isso não é permitido. Nela, o preço da sanidade das frutas é a constante vigilância. Como determina a PIF, o pomar do produtor que adere ao sistema tem que ser monitorado permanentemente, verificando-se a presença de fungos ou insetos e o avanço de doenças. Segundo Adalecio Kovaleski, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, a produção integrada define parâmetros para essa verificação em cada cultura e para as medidas de controle. A aplicação de agroquímicos só é permitida nos casos em que pragas e doenças começam a significar danos econômicos à produção, e há regras rigorosas sobre quais produtos podem ser utilizados e em que dosagens.

Os manuais para o monitoramento, chamados de "kit-pragas", são peças básicas para o controle de sanidade do pomar. Nas áreas de manga e uva irrigadas do Nordeste, os funcionários encarregados do monitoramento usam publicações simples preparadas pelos pesquisadores da Embrapa. Elas ensinam como identificar os sintomas das principais doenças e ataques de pragas, o método de amostragem, uma escala de notas que determina o grau de infestação e o nível de ação, ou seja, o ponto a partir do qual o problema requer combate direto.

Os empregados encarregados de ficar de olho na saúde do pomar têm que receber treinamento especial. Muitas propriedades tiveram que contratar funcionários especificamente para a tarefa. Ao decidir aplicar as normas da produção integrada em seu pomar de uva no perímetro irrigado Senador Nilo Coelho, em Petrolina, uma das primeiras providências do agricultor Juscelino Antonio de Araújo foi contratar um técnico agrícola para o monitoramento. Juscelino passou a produzir uvas há 12 anos e esforça-se para exportar a maior parte da produção dos seus 13,5 hectares de parreirais. "Quem for trabalhar para o mercado interno está morto", diz ele. Por isso o produtor está adotando a PIF: "É uma exigência dos importadores". Ele já avançou no monitoramento e no aprimoramento de técnicas aplicadas no pomar para não perder a possibilidade de vender para o exterior.

Na Fruitfort, uma das maiores empresas exportadoras do Vale do São Francisco, a produção também vem passando por mudanças. A área de pomares irrigados da empresa chega a 350 hectares de manga e 78 de uva. Lá estão funcionando alguns equipamentos que oferecem informações para aperfeiçoar o monitoramento das pragas na região. Junto às estações edafoclimáticas, que registram os dados das variações meteorológicas, foram instalados coletores de esporos, capazes de oferecer dados sobre a dispersão de pragas no pomar. Os aparelhos sugam o ar, e os esporos dos fungos carregados pelo vento aderem a uma cartela, que é levada a laboratório.

Medina, da Fruitfort: avanço de fungos sob controle

O exame identifica os esporos presentes, e a correlação com os dados climáticos permite determinar a ligação entre a difusão de determinados fungos e as variações climáticas. "O agricultor ganha com isso condições melhores de se preparar para controlar a disseminação de doenças e pragas", afirma Paulo Roberto Coelho Lopes, da Embrapa Semi-Árido. Os coletores fazem parte das chamadas estações de aviso de pragas e doenças, uma das ferramentas importantes que serão utilizadas no sistema integrado.

Além do monitoramento, outra exigência da produção integrada é o registro das práticas no pomar. Todos os procedimentos — irrigação, adubação, podas, aplicação de defensivos — têm que ser anotados. Uma área grande como a da Fruitfort deve ser dividida em parcelas, e cada uma delas tem sua caderneta de campo na qual os empregados têm que registrar todo o trabalho feito. As informações são depois passadas para o computador. "Isso ajuda a organização da produção e dá segurança para o comprador", afirma Voltaire Diaz Medina, gerente de produção da empresa.

Coelho Lopes: coletor dá informações sobre pragas

As informações serão conferidas periodicamente pelos fiscais das certificadoras, que verificam se as normas estão sendo seguidas. São também um instrumento para o rastreamento da produção. Se um problema for detectado em algum lote de frutas vendidas, é possível averiguar de que parcela elas provêm e que procedimentos foram aplicados na sua produção.

As grandes empresas, com experiência em exportação, já contavam com bons esquemas de controle, afirma Luiz Borges Júnior, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã. Para muitos pequenos produtores, porém, a anotação dos procedimentos significa trabalho a mais. A definição estrita de normas da PIF implica investimentos e novas exigências para os agricultores. No entanto, de acordo com Borges, a maior parte deles está vendo as regras do sistema como uma vantagem. "Elas representam um plano de vôo para alcançar uma produção com qualidade." A definição de regras a ser seguidas não torna a PIF um sistema rígido demais, segundo Adalecio Kovaleski. "As normas são revistas periodicamente pelas comissões técnicas e grupos de trabalho, em um processo dinâmico." Ele e outros pesquisadores continuam extraindo informações das áreas experimentais comparativas de maçã, e a prática dos agricultores que aderiram ao sistema indica novos problemas, possibilidades e soluções. E na medida em que novas técnicas têm sua eficiência comprovada, elas podem ser incluídas nas regras do "plano de vôo" para ter frutas e ambiente mais sadios.

Próxima safra terá certificação

As macieiras estão carregadas, é tempo de colheita nos estados do Sul. Alguns dos pomares já estão em seu quarto ciclo de produção integrada. E, na próxima safra, as primeiras maçãs brasileiras poderão ter direito ao passaporte exigido pelos importadores europeus, prevê Luiz Borges Júnior, presidente da ABPM. Para isso, na safra em andamento, a obediência às regras nos procedimentos e em todas as exigências de controle e registros está sendo verificada pelo corpo técnico da associação. É a chamada quarentena, um pré-requisito para o processo de certificação.

As certificadoras devem entrar em ação ainda este ano, o que permitiria a aprovação dos produtos na próxima colheita. O Inmetro — Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial foi encarregado pelo governo de regulamentar e conduzir o processo de "avaliação de conformidade" dos produtores às regras da produção integrada. Ele deve credenciar organismos para fiscalizar as propriedades e emitir a certificação.

As diretrizes e normas técnicas gerais para a PIF já foram publicadas pelo Ministério da Agricultura. Elas têm de estar de acordo com as regras internacionais fixadas pela Oilb — Organização Internacional de Controle Biológico para que a certificação brasileira seja reconhecida em todo o mundo. Um Conselho Técnico para a Produção Integrada de Frutas está sendo designado para servir de órgão executivo para todas as culturas no país, atuando, por exemplo, em caso de dúvidas e conflitos entre produtores e certificadoras.

Cada cultura terá também uma comissão técnica, formada por representantes do governo e dos produtores, responsável pela definição e atualização das normas técnicas específicas. Depois da maçã, da manga e da uva, o trabalho de definição das regras já começou para outras culturas. Os pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho aproveitam a experiência com a maçã a fim de definir o sistema para o pêssego. As áreas experimentais para o projeto dos cítricos estão sendo implantadas em São Paulo, em Sergipe e na Bahia. O projeto do coco é coordenado pela Embrapa Tabuleiros Costeiros, de Aracaju, e órgãos de pesquisa estaduais conduzem dois outros projetos: o da banana é liderado pela Cati — Coordenadoria de Assistência Técnica Integral paulista; e o do mamão, pelo Incaper — Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural.

Fonte: Globo Rural

 
 

FAEP - Federação da Agricultura do Estado do Paraná
Comissões Técnicas