COMISSÃO TÉCNICA DE
Fruticultura

NOVA TÉCNICA ELEVA SAFRA DE UVA EM JALES

Aplicação de regulador vegetal permite colheita
de niagara rosada na entressafra

Chico Siqueira
Especial para O Estado

O viticultor Valcir de Oliveira Monção não esconde a satisfação e sorri, ao contar detalhes da última colheita de uvas da variedade niagara rosada. "Era para colher metade do que colhi", diz ele. Assim como Monção, dezenas de viticultores da região de Jales, no norte de São Paulo, uma das principais produtoras de uva do Estado, estão substituindo os pomares de rubi, itália e benitaka pela niagara, mais rústica, porém mais rentável. A Casa da Agricultura de Jales estima que a área plantada de niagara salte de 108 hectares para 200 hectares este ano.

A substituição é motivada por uma nova técnica de manejo e tratamento fitossanitário, apresentado recentemente a uma banca de doutorado da Unesp de Jaboticabal (SP), mas em uso há pelo menos duas safras em Jales. O inventor da técnica é o agrônomo Antônio Augusto Fracaro.

Essa revolução nos pomares de Jales é determinada principalmente pela introdução da aplicação de um regulador vegetal, o ethephon, que serve de "cobertor", protegendo a planta no frio, fortalecendo-a na brotação e formação dos frutos. Coma técnica, os produtores burlam a concorrência de Jundiaí, uma das maiores produtoras de niagara do País. Colhem os frutos antecipadamente e obtêm melhores preços para a sua uva.

A colheita é feita em setembro e outubro, enquanto a de Jundiaí ocorre a partir da segunda quinzena de dezembro. Na última safra, o preço da uva de Jales chegou a R$ 2,40 o quilo, deixando os viticultores mais do que satisfeitos com a niagara. "Agora, sim, estou mesentindoumviticultor. Até então, era só stress", diz o agricultor José Roberto Olhier. Desanimado, Olhier erradicou em 2002 e 2003 as parreiras de uvas finas (itália e benitaka) e estava prestes a abandonar o barco, quando tentou, numa área de 0,5 hectare, cultivar a niagara. "Vi o trabalho do Fracaro e decidi tentar", diz. A experiência foi melhor do que esperava. Para a próximasafra, em2005, Olhier vai ampliar a lavoura para 3 hectares.

MANEJO ESPECÍFICO

Fracaro, no entanto, alerta para o fato de que o sucesso da aplicação do regulador – cujo nome técnico é ethephon – somente pode ser obtido se acompanhado de um manejo específico da plantação. "A planta precisa estar bem nutrida e preparada para receber a técnica", diz.

Para isso, são necessárias análises de solo e foliar para monitorar a nutrição da planta durante a experimentação e registros de dados para avaliar as interferências climáticas sobre as plantas.

A técnica possibilita que o viticultor economize com mão-de-obra e fungicidas. Nas outras variedades, é necessário fazer desfolhamento manual e aplicar fungicidas para controlar pragas que surgem com as mudanças climáticas. Com o manejo de Fracaro, não há necessidade de desfolha; as folhas caem sozinhas e a aplicação de fungicidas é reduzida porque a planta está fortalecida. As conseqüências são frutos mais fortes e saudáveis e parreiras uniformes e mais resistentes ao frio.

O agricultor Valcir Monção é a prova de que a técnica funciona. Ele planta niagara há oito anos, mas somente na última safra optou pela técnica de Fracaro. A aplicação do regulador evitou que perdesse pelo menos metade da safra por causa das baixas temperaturas, já que o frio foi intenso no ano passado.

Monção colheu 30 toneladas de niagara em cada um dos 13 hectares, que serão ampliados para 16 este ano. "Não dá nem para comparar com outras variedades. A produção da niagara é de qualidade, com boa aceitação e preço mais alto", diz. Sua lucratividade foi 30% maior na última safra de niagara em relação às anteriores. "O fruto ficou mais pesado, mais doce e mais roxo. E quem não vai querer comprar uma fruta mais gostosa?", diz.

Planta adquire mais resistência no inverno

Regulador age como um cobertor nos meses frios, permitindo que parreira se fortaleça A descoberta do uso do regulador vegetal na uva teve início em 1992, quando Fracaro usou o ethephon para colorir uvas rubi em Jales. Em1996, pensou na possibilidade de usá-lo para produzir niagara rosada na entressafra. "A produção da uva na entressafra (setembro-outubro), embora sendo uma excelente opção para os viticultores, era problemática, por causa da dificuldade de emissão e desenvolvimento das brotações após a poda de produção, realizada no inverno", diz Fracaro. "Além disso, uma característica da niagara rosada é não brotar em baixas temperaturas." Foi com esse desafio que ele decidiu fazer os estudos para o seu doutorado.

Da aplicação à colheita são 120 dias. A aplicação do regulador é feita pulverizando as folhas entre 15 e 20 dias antes da poda de produção (entre maio e junho). O produto atinge o caule, a gema e as raízes. De 18 a 22 dias após a aplicação, começam a surgir os primeiros brotos, com as primeiras folhas e cachos ainda minúsculos. De 10 a 15 dias depois, o produtor pode fazer o desbaste dos frutos e, em 90 dias, colher.

Durante o período, são feitas análises de solo e foliar para acompanhar a nutrição e os dados climáticos são registrados. Até então, o regulador era mais usado para maturação da cana-de-acúcar, melhorar a colheita de café e elevar a produção do látex das seringueiras. Na niagara, seu uso é importante porque aumenta a brotação em baixas temperaturas. O regulador atua como um cobertor, protegendo-a do frio.

Além disso, os ramos crescem precocemente, aumentando o volume de folhas, que transformam a fotossíntese em carboidratos que vão alimentar os frutos. A conseqüência é aumento do número médio de cachos por plantas; experiências comprovaram que cada planta dá em média de 25 a 30 cachos. Com o regulador, a produção sobe para 75 a 80 cachos por planta. Em época fria essa produção cai para 55 cachos. O custo de produção reduz-se em um terço, pela dispensa da mão-de-obra e redução no gasto com defensivos. O custo de plantio fica em R$ 16 mil/hectare, e o das uvas finas, em R$ 22 mil.

SAIBA MAIS:
Antônio Fracaro, tel. (0--17) 3621-6884, fracaro.fracaro@itelefonica.com.br

Fonte: Agrícola – Estado de São Paulo 02/02/2005

 
 

FAEP - Federação da Agricultura do Estado do Paraná
Comissões Técnicas