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Crise brasileira gera | |
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O poder de compra dos agricultores, na média, pode ser medido por meio do Índice de Paridade (IP) – relação entre o índice de preços recebidos pelos produtores e o índice de preços pagos pelos produtores – ou relação de troca que compara as mudanças relativas entre índices de preços recebidos e preços pagos. O Índice de Paridade permite estabelecer um parâmetro sobre os ganhos ou as perdas do setor agropecuário em determinado período. É importante acrescentar que se trata de índice, portanto, um indicativo que não deve ser interpre- |
tado como percentual. Os índices mostram que o setor agropecuário perdeu poder de troca, mas não necessariamente que houve prejuízos. As relações de troca demonstram a quantidade de sacas necessárias para se adquirir um determinado produto, insumo ou máquina. O Índice de Preços Pagos pelos Produtores (IPP) reflete o comportamento médio dos preços dos principais insumos agrícolas pagos pelo agricultor (excluindo as despesas de frete), tais como fertilizantes, herbicidas, máquinas, combustíveis, sementes, mão-de-obra e outros. O Índice de Preços Recebidos pelos Produtores (IPR) reflete o comportamento médio dos preços recebidos pelo agricultor: algodão, arroz, feijão, milho, soja, trigo, boi gordo, leite, suínos e aves entre outros. |
O agronegócio tem características que o |
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diferenciam dos demais setores. Numa ponta está a maior parte dos produtores de matérias-primas que não tem poder de fixação dos preços. O produtor vende no mercado concorrencial e compra no mercado cartelizado que maximiza o lucro via preço. Na média dos dois últimos anos, a relação de troca no Paraná assinala uma deterioração da ordem de 7%. Pode-se inferir que não houve aumento de produtividade média que tenha sido superior e capaz de amenizar a deterioração das relações de troca porquanto o Paraná sofreu nas safras de 2004 e 2005 significativas perdas agrícolas com a seca e a ferrugem da soja e, conseqüentemente, a produtividade média foi menor. |
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A agropecuária paranaense enfrenta sérias dificuldades, como escassez de crédito rural à taxa fixa de 8,75% ao ano, renegociação das dívidas, tendências do mercado interno e externo dos grãos, aumento da oferta mundial de grãos e conseqüente queda dos preços internacionais, aumento do custo de produção, gargalos de infra-estrutura e logística, problemas de |
comercialização, mais notadamente na cultura do trigo, dificuldades que extrapolam nossas fronteiras, em razão do comportamento protecionista dos países desenvolvidos, com a imposição de barreiras não-tarifárias, além de quebra de safra dois anos consecutivos (fatores climáticos) e a ocorrência de ferrugem asiática, com prejuízos da produtividade. Entre os meses de setembro de 2004 e 2005, os preços dos fertilizantes no Paraná caíram entre 15 e 20%. Já os preços da soja e do trigo, em igual período, caíram 26% e 20%, respectivamente, com conseqüências diretas nas relações de troca. |
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sacas para cobrir os custos de produção/hectare; em 2005 foram necessárias 27,9 sacas. Para o milho, a relação de troca registrou um desempenho desvantajoso entre 2003 a 2004, quando atingiu 61,2 sacas de milho por tonelada de fertilizante. Em setembro de 2005 essa relação se reduziu para 55,3 sacas, um pouco mais vantajosa o que de certa forma explica a migração da cultura da soja para o milho na safra 2005/06. Na cultura do trigo, em setembro de 2004 eram necessárias 4.316 sacas de trigo para aquisição de um trator de 75 cv, já em setembro de 2005 foram necessárias 4.907 sacas de trigo. O Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária em 2005 deverá apresentar queda de R$ 14,23 bilhões em relação ao resultado de 2004. A estimativa foi obtida a partir de estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP). Conforme a estimativa, o PIB da atividade primária da agropecuária brasileira passa de R$ 160,65 bilhões (2004) para R$ 146,42 bilhões (2005), uma variação negativa de 9%. |
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A crise de liquidez que se instalou no setor agropecuário a partir de 2004 e se consolidou em 2005, deverá se estender nos próximos anos. Face à crise de liquidez, os produtores ficam propensos a utilizar menos tecnologia, isto é, alocam menores recursos nas lavouras, nos rebanhos, em suas propriedades e na renovação da frota de máquinas agrícolas. A valorização do real e os preços internacionais mais |
baixos para as commodities agrícolas permanecem como uma ameaça para a renda no campo, afetando todo o conjunto do agronegócio. Com o real mais forte, o Brasil se tornou menos competitivo no mercado internacional. A questão cambial tira a competitividade de vários produtos agrícolas. Os principais cultivos da safra de verão 2004/05 tiveram preços declinantes em plena entressafra, em função do aumento da oferta internacional, no caso dos produtos exportáveis, e da fraca demanda interna, no caso dos produtos destinados ao mercado interno. A estimativa do Valor Bruto da Produção do Paraná, conforme a Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (SEAB) para 2005 é de R$ 24,0 bilhões (variação negativa de 20% em relação ao ano de 2004). O Valor Bruto da Produção dos principais grãos do Estado deverá passar de R$ 12,01 bilhões (2004) para R$ 7,54 bilhões (2005), menos 37%, equivalente a R$ 4,47bilhões em razão da queda das cotações internacionais, desvalorização cambial e a quebra de safra. A soja caiu de 12,7 milhões para 9,4 milhões de toneladas (-26%) e o milho de 10,6 milhões de toneladas para 7,6 milhões de toneladas (-28%). O trigo passou de 3,1 milhões de toneladas para 2,8 milhões de toneladas. A perda estimada na agricultura nas três principais culturas do Paraná em 2005 equivale a US$ 1,78 bilhão (taxa cambial média de R$ 2,4987/US$). A crise de liquidez no agronegócio deverá se estender em 2006, delineando um quadro não muito diferenciado de 2005, isto porque não há sinal que o Governo Federal promoverá modificações na política agrícola em favor da renda do setor e os fatores câmbio e clima concentram as maiores incertezas. Por outro lado, o direcionamento de parcela expressiva de recursos oficiais para a agricultura familiar e a quase completa falta de estratégias para sustentação da comercialização figuram como perfil que tende a se manter para o próximo ano. Gilda
Bozza Borges |
Boletim Informativo nº
892, semana de 5 a 11 de dezembro de 2005 | VOLTAR |